Passava das quatro da madrugada quando desligou o
computador. Nos últimos meses sua vida transformara-se num tormento.
Não definia mais o que era real e o que era virtual. Não conseguia dar
conta dos mais de três mil amigos das redes sociais. Passava o dia
tentando ser simpático a todos que lhe mandavam mensagens.
Tinha mais de 50 namoradas virtuais. No início, até era divertido,
alguns meses depois, sentiu-se enfastiado. Saía com mulheres
diferentes, todos os dias. Não conseguia satisfazer a sede de amor
feminina. Era muita candidata mandando SMS. E-mails. Xingando-o nas
redes sociais. Por vezes, acreditava ter perdido a capacidade de amar.
A vida virara do avesso. O chefe o demitiu. Não conseguia entregar os
projetos dentro do prazo.
Desempregado, a obsessão virtual aumentou. Dormia de madrugada.
Acordava cedo e ligava o computador. Precisava saber das novidades.
Ficaria apenas uma hora. Pensava. Só que, falava com um , com outro, e
quando olhava o relógio , era hora do almoço. Comia pouco. Esquecia
de jantar. Muita coisa para fazer no mundo virtual. Ler as notícias.
Selecionar as mais importantes. Escutar música. Dar opinião nos assuntos
mais polêmicos do momento. Responder aos amigos.
A mãe reclamava que ele sumira da casa dela . Bebia uma cervejinha na
frente do computador. Ir ao banheiro era um sacrifício. Segurava até o
último momento. Prendia a respiração. Culpa da ansiedade. Não podia
perder tempo. Mais de cem e-mails para responder. A cabeça girava. O
msn piscava demoníaco . Até a mãe pediu autorização .
Reencontrara , nas redes sociais, amigos de infância. Do mesmo prédio.
Colégio. Um destes amigos, coleguinha de turma, um branquelo, que
usava aparelho nos dentes, atualmente casado, pai de dois meninos,
queria saber se ele colara na prova de português sobre análise
sintática. Ele foi o único a tirar dez na turma. Não lembrava. Faria
alguma diferença lembrar ? Teve vontade de gritar. Sentiu pela
primeira vez, que precisava se desligar do mundo . Planejara
milimetricamente a liberdade . Morreria virtualmente. Com o dinheiro
da indenização, viajaria para um lugar distante. Com dificuldade de
acesso a internet . Adeus Bill Gates. Steve Jobs. Zuckerberg .
Branquelos e namoradas carentes. Queria reencontrar a identidade. Sentir
novamente, o gosto da liberdade.
Fonte: contosdavidareal.blogspot.com
Autora: Celamar Maione